Pegasus e alertas da Apple marcam nova onda de vigilância
Pesquisadores da SHARE Foundation e do Citizen Lab da Universidade de Toronto confirmaram na segunda-feira a presença de spyware em dispositivos de duas figuras centrais da contestação política na Sérvia. O reitor da Universidade de Belgrado, Vladan Đokić, e o procurador Rade Bajić, do Ministério Público de Crime Organizado, foram alvos de vigilância digital às vésperas das eleições parlamentares marcadas para 25 de outubro.
No caso de Đokić, a análise forense do Citizen Lab apontou com alta confiança a infecção pelo Pegasus, do NSO Group, ocorrida em 2026 por meio de uma exploração de zero-clique, que não exige interação da vítima. O reitor, que apoia publicamente os protestos estudantis contra a corrupção desencadeados pelo desabamento da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad em 2024, já teve seu gabinete invadido por autoridades em março, com apreensão de equipamentos.
Já Bajić integrava a equipe jurídica que processava um caso de corrupção de alto perfil envolvendo a aprovação de um complexo hoteleiro e residencial de 500 milhões de dólares em área histórica protegida de Belgrado. Reportagens recentes ligam o projeto à Affinity Partners, de Jared Kushner, para um hotel da marca Trump. O procurador relatou ter recebido um alerta de ameaça da Apple, embora o tipo exato de spyware em seu dispositivo ainda esteja sob investigação.
A pesquisadora Andrijana Ristić, da SHARE Foundation, classificou este como o segundo caso confirmado de Pegasus na Sérvia neste ano. Ela contextualizou que a vigilância no país tem histórico longo, citando ferramentas anteriores como FinFisher e supostos vínculos com o Hacking Team, além do NoviSpy documentado pela Anistia Internacional em 2024. Para Ristić, a prática é disseminada e ganha mais projeção internacional devido ao momento político sensível.
John Scott-Railton, pesquisador sênior do Citizen Lab, afirmou que a NSO Group passa uma década alegando renovação a cada abuso exposto, mas a realidade mostra que o Pegasus é uma tecnologia para repressão. Segundo ele, não é acidente que pessoas que defendem a liberdade diante da corrupção continuem sendo hackeadas com produtos da empresa israelense.
O pleito de outubro ocorre enquanto o presidente Aleksandar Vučić luta para manter o controle do governo em meio ao maior movimento de contestação de seus anos no poder. Os protestos estudantis, alimentados pela revolta contra a corrupção sistêmica, colocaram a vigilância digital no centro do debate sobre a integridade democrática no país.
Com informações de: CyberScoop