Pesquisa revela que dois terços dos britânicos não confiam no governo para proteger a privacidade
Uma nova pesquisa encomendada pelo Center for Democracy & Technology (CDT) revelou que a grande maioria dos britânicos é contrária à ideia de dar ao governo acesso às suas mensagens privadas criptografadas. De acordo com a pesquisa, 93% dos adultos britânicos acreditam que têm direito a conversas privadas na internet, enquanto 89% consideram que nenhuma pessoa ou entidade deve acessar suas mensagens pessoais sem uma ordem judicial.
Um resultado que preocupa o governo do Reino Unido: dois terços dos entrevistados afirmaram que não confiam nem no atual governo nem em qualquer futuro administrador com o poder de acessar mensagens criptografadas. Essa desconfiança transcende linhas políticas. Entre os eleitores de 2024, 58% dos votantes do Partido Trabalhista, 59% dos Conservadores, 56% dos Liberais-Democratas, 69% dos Verdes e 75% dos do Reform disseram que não confiam de forma alguma.
A pesquisa foi realizada pela empresa Public First, que entrevistou 2.000 adultos britânicos em abril, com os resultados ponderados para refletir a população geral. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais. Os dados chegam em um momento de forte tensão entre o governo britânico e a indústria de tecnologia, que defende que a criptografia funciona melhor quando não há “chave extra” disponível.
O conflito tornou-se público quando a Apple retirou o Advanced Data Protection dos usuários do Reino Unido, após receber um Aviso de Capacidade Técnica (TCN) secreto, emitido ao abrigo da Lei de Poderes Investigatórios. A empresa recorreu da ordem, e embora o governo dos EUs tenha indicado que o Reino Unido retirou a exigência de acesso a dados de cidadãos americanos, relatos posteriores sugerem que um novo TCN foi emitido, agora focado em usuários britânicos.
Apesar do incidente internacional, 55% dos pollados nem haviam tomado conhecimento do aviso da Apple. Quando apresentados à ideia, o apoio permaneceu limitado: apenas 12% apoiavam o governo podendo ordenar secretamente às empresas que forneçam acesso à informação dos usuários, impedindo-as de revelar a ordem. Um terço disse que o governo não deveria ter esse poder, enquanto 41% queriam mais transparência ou supervisão parlamentar.
Os entrevistados também não mostraram dispostos a sacrificar a segurança pelo trabalho policial. 53% consideraram que os riscos de segurança de acessar mensagens criptografadas superam os benefícios, contra 28% que viam os benefícios como maiores. O temor de que mecanismos de acesso criptografado introduzam vulnerabilidades para hackers e criminosos foi citado por 84%, enquanto 82% expressaram preocupação com o abuso desses poderes. Além disso, 65% disseram que se tornariam mais cautelosos com o que curtiam, compartilhavam ou comentavam, e 41% admitiriam autocensurar críticas a instituições públicas ou autoridades.
O CDT, que defende criptografia forte e encomendou a pesquisa como parte de sua campanha, não é um observador neutro. A pesquisa foi conduzida de forma independente. Comentando os resultados, Jim Killock, diretor executivo do Open Rights Group, declarou: “O público britânico instintivamente sabe que poder se comunicar de forma privada é crucial para nossa individualidade e para a sobrevivência de uma sociedade livre e aberta. O governo persiste na mitologia de que pode enfraquecer a criptografia para atingir apenas os maus. Os ataques à segurança dos nossos telefones, ferramentas de segurança e aplicativos de mensagens nos prejudicam todos e enfraquecem nossa democracia”.
Embora o governo britânico provavelmente continue sua longa perseguição a comunicações criptografadas, os números sugerem que os ministros não contam com um apoio público entusiástico.
Com informações de: The Register