Bots australianos enganam criminosos em ligações e chats por horas

A empresa australiana Apate, batizada em homenagem à deusa grega do engano, desenvolveu uma plataforma que desvia golpistas telefônicos para conversas com agentes de inteligência artificial treinados para prolongar o diálogo indefinidamente sem nunca cair no golpe. O sistema conta atualmente com cerca de 350 mil bots ativos, utilizados por bancos e apoiados por operadoras de telecomunicações, que não apenas atendem chamadas como também se infiltram em grupos de golpistas em aplicativos de mensagens e respondem a SMS com o mesmo objetivo: frustrar a operação criminosa enquanto coletam dados de inteligência em tempo real.

Um minuto que um golpista passa conversando com um bot é um minuto em que você provavelmente está salvando centenas, senão milhares, de pessoas potenciais de serem contatadas por aquele mesmo criminoso.

A afirmação é de Dali Kaafar, fundador e CEO da Apate, que explica que a automação de discagem permite que um único fraudador alcance um volume massivo de vítimas em pouco tempo. Ao manter o criminoso ocupado com uma “vítima perfeita” — cética o bastante para não fechar o negócio, mas esperançosa o suficiente para não desistir —, a plataforma drena o recurso mais valioso do golpe: o tempo.

Personalidades variadas tornam bots indistinguíveis de humanos

Os agentes da Apate possuem perfis, habilidades linguísticas e personalidades distintas. Alguns têm WhatsApp, outros não; alguns atendem na hora, outros desligam dizendo que retornam depois. Essa variabilidade impede que os golpistas identifiquem padrões e percebam a armadilha. Em teste realizado pela reportagem, dois jornalistas tentaram, por seis minutos, convencer uma persona chamada “Lucy” e seu suposto consultor financeiro “Mickey” a investir em uma oportunidade fictícia de criptomoedas. A conversa fluiu com naturalidade, timing humano e resistência convincente, resultando em fracasso total para os “golpistas” de teste.

Kaafar relata que chamadas reais frequentemente ultrapassam duas horas de duração. Nesse período, a plataforma já acumulou mais de 250 mil itens de inteligência, incluindo URLs maliciosas, contas de “mulas” financeiras e dados bancários usados nas fraudes. Embora o volume de golpes globais — bilhões de chamadas e mensagens por ano — torne a cobertura total impossível, a abordagem representa uma mudança de paradigma: em vez de apenas bloquear ou prender, a estratégia passa a ser a de esgotar recursos operacionais do inimigo.

Psicologia inversa e “honeypots” turbinados por LLMs

A tática de explorar vulnerabilidades psicológicas dos criminosos — mantendo-os ocupados, frustrados e desperdiçando infraestrutura — ganha força também no combate a invasões de rede. Pesquisadores da ETH Zurich, liderados pelo doutorando Mark Vero, demonstraram que “honeypots” (isca de rede) equipados com grandes modelos de linguagem (LLMs) mantêm agentes de ataque automatizados engajados por tempo significativamente maior do que iscas tradicionais com comportamento previsível. Os atacantes controlados por IA se convencem mais facilmente da autenticidade do alvo simulado e o classificam como honeypot com frequência muito menor.

“Se esses sistemas forem bem construídos, acho que é bastante vantajoso para os defensores”, afirma Vero. A evolução dos honeypots estáticos para ambientes dinâmicos e conversacionais, capazes de reagir a táticas inesperadas, espelha a lógica da Apate: transformar a curiosidade e a ganância do adversário em uma armadilha que gera inteligência acionável para bancos, forças policiais e provedores de nuvem.

Colaboração entre setores ainda é o gargalo para deter a expansão dos golpes

Apite dos avanços tecnológicos, especialistas concordam que a inteligência artificial sozinha não estancará a maré de fraudes digitais. O compartilhamento ágil de indicadores de compromisso entre polícias, redes sociais, instituições financeiras e operadoras de telecom continua sendo o elo mais fraco. A IA pode atuar como catalisador dessa colaboração, processando volumes massivos de dados heterogêneos para correlacionar campanhas, identificar infraestrutura compartilhada e priorizar alvos de alta valia para derrubada coordenada.

Enquanto essa integração não amadurece, a guerra de atrito travada por bots como os da Apate e honeypots inteligentes compra tempo e impõe custos reais aos criminosos. Cada hora gasta negociando com uma “Lucy” que nunca transfere o dinheiro é uma hora a menos para atingir vítimas reais. Nesse jogo de soma zero, fazer o golpista perder tempo deixa de ser apenas uma pegadinha de especialistas em segurança e passa a ser uma métrica estratégica de defesa.

Com informações de: Wired Security